Contra a fragmentação violentadora do regime colonial e escravista, essa seleção de obras se empenha na reconstrução de uma continuidade histórica da cultura negra que não se atenha apenas ao discurso sobre o negro na condição de escravizado, mas como produtor de uma cultura singular que entrelaça África e América.
Segundo a historiadora e ativista dos direitos humanos dos negros e das mulheres Beatriz Nascimento, a primeira violência que o negro escravizado sofre é a perda da sua imagem, a partir do momento em que ele tem sua identidade e sujeição apagadas. Com base nessa análise construída pela pensadora, a mostra dessas obras analisa como as imagens que foram construídas sobre a população negra trazida à força ao Brasil colaboraram para a perpetuação de estereótipos e preconceitos sobre essa mesma população.
O Brasil recebeu, aproximadamente, 46% dos cerca de 11 milhões de africanos que desembarcaram compulsoriamente neste lado do oceano Atlântico, ao longo de mais de 300 anos. O país também foi o último a abolir o tráfico negreiro, em 1888, por meio da assinatura da Lei Áurea. Embora tenha declarado o fim da escravização, essa lei não previu um projeto de integração social, perpetuando até hoje desigualdades econômicas, políticas e raciais.
Ao reunir um pequeno mas potente grupo de trabalhos, a mostra se debruça sobre imagens seminais da história da arte, como a gravura de Jean-Baptiste Debret, encenações do Coletivo Legítima Defesa, o filme de Raquel Gerber e o livro de Antonio Bispo dos Santos. Tais obras representam como desde o período colonial até hoje no Brasil existe uma leitura racista sobre o povo negro, não só nas artes, mas também na literatura, teatro e cinema, dentre outros campos da cultura, usualmente falam a partir de si para reescrever a história.
Beatriz Nascimento descreve a violência contida na perda da imagem: é a partir desse entendimento que artistas têm produzido uma série de imagens, a fim de criar um lugar de liberdade para si e, de maneira geral, para toda a população negra. Ao abordar as várias facetas do racismo e questionar os modos usuais de sua representação, essa mostra aponta a importância de estabelecer a noção de construção e fortalecimento da identidade como forma de pertencimento.




